Professores de jornalismo
do FNPJ falam
das mudanças no ensino após queda do diploma.
Sérgio Gadini, presidente do Fórum;
Mirna Tonus, vice-presidente; e Edson Spenthof, segundo-secretário do FNPJ,
todos professores de jornalismo em universidades federais, falaram sobre a
questão. O Fórum reforça sua posição de que a defesa do diploma é a profissão e
aponta que o ensino de jornalismo precisa se reinventar para abarcar a
complexidade dos cenários brasileiros, dialogando com a realidade concreta do
mercado sem perder o compromisso reflexivo, próprio dos cursos superiores. Veja
trechos das entrevistas com os professores:

PROCURA PELO CURSO
Sérgio Gadini - Não existem,
em nível nacional, indicadores que demonstrem um amplo retrato da procura por
cursos de Jornalismo, após a questionável decisão do STF (em junho/2009).
Informações obtidas pelo FNPJ revelam diversas situações posteriores a esse
episódio: as universidades públicas, de um modo geral, não registraram queda na
procura por Jornalismo; algumas universidades particulares tradicionais, que
mantêm cursos de Jornalismo há algumas décadas, também não apontaram queda
significativa na busca por vagas; outras, também consolidadas, deixaram de
oferecer algumas turmas; alguns cursos mais recentes de instituições privadas,
em várias cidades do País, chegaram a suspender a oferta de turmas entre 2010 e
2011. A aprovação da Proposta de Emenda Constitucional que exige formação
universitária para o exercício da profissão é considerada, pela direção do
FNPJ, como uma estratégia fundamental ao fortalecimento do Jornalismo, seja no
campo do ensino, seja para valorização da profissão no Brasil.
PERFIL DO CALOURO E TEORIA x PRÁTICA
Sérgio Gadini - Entre os cerca de 370
cursos de graduação em Jornalismo em funcionamento no país, não há um perfil
único aos mais de 70 mil estudantes matriculados. Isso porque existem
diferenças também entre os cursos ofertados. Em linhas gerais, algumas
características aproximam os estudantes de Jornalismo. Por exemplo, nas
instituições públicas o mais habitual é de estudantes recém-egressos do ensino
médio (com média de idade por volta de 17 a 18 anos, cerca de 60% a 70% do sexo
feminino). Este é também o perfil aproximado de estudantes que ingressam em
cursos de universidades particulares com funcionamento diurno ou integral. Já o
estudante que ingressa em cursos noturnos de instituições particulares é bem
mais eclético, com uma faixa etária mais plural, pois muitas vezes é um aluno
que trabalha durante o dia e frequenta a universidade à noite. Outro dado
interessante é que mesmo que o diploma não seja exigência hoje, uma parte
significativa de estudantes que buscam qualificação já atua no meio,
especialmente nas cidades do interior.
Mirna Tonus - Acreditamos que há um esforço
nestes últimos anos por parte das direções universitárias, em dialogar mais com
as situações concretas da profissão que, inclusive, estão tornando os cursos
mais jornalísticos – como indicam tendências da profissão – e menos
comunicólogos, característica esta que se desloca cada vez mais para a
pós-graduação. Outro aspecto diz respeito às recentes preocupações, registradas
em cursos de diferentes regiões do país, que se voltam um pouco mais para os
problemas locais ou regionais, e menos para as outrora expectativas de alguns
poucos grandes de mídia empresarial. A direção do FNPJ tem procurado discutir
este necessário reconhecimento da pluralidade geográfica e social do Brasil,
como uma estratégia de fortalecimento das identidades regionais e, depois, com
impacto na profissão.
Edson Spenthof - Ainda há uma
distância significativa em várias empresas jornalísticas, inclusive as grandes,
ditada em geral pelos seus proprietários, em relação aos valores e princípios
jornalísticos basilares, vigentes há quase dois séculos e ensinados e debatidos
sistematicamente em sala de aula. Embora não sejam os únicos casos, são
especialmente exemplares dessa situação as coberturas de política e sobre a
própria mídia. Ainda são frequentes os apelos de editores e donos de mídia aos
novos profissionais para que esqueçam tudo que aprenderam nas faculdades. Aos
olhos do FNPJ, isso é extremamente preocupante e revelador do jornalismo
questionável que um setor da imprensa nacional ainda pratica.
DESAFIOS E AVANÇOS DO ENSINO
Sérgio Gadini - O primeiro
grande problema e meta do ensino de Jornalismo no Brasil passa pelo
reconhecimento da profissão e isso está diretamente associado à aprovação da
proposta de emenda constitucional (PEC 33) que prevê a exigência de formação
universitária em jornalismo para o exercício profissional e já foi aprovada em
primeiro turno no Senado. As velhas teses de liberalização já se mostraram, em
diversos setores, que não passam de apostas retóricas para desmontar as
profissões com suas consequências sociais prejudiciais tanto aos profissionais
quanto aos usuários da informação. A mesma lógica vale para o jornalismo, que
não pode ser controlado por alguns poucos grandes grupos empresariais. A
democratização da mídia também passa pela legitimidade e pelo fortalecimento da
profissão.
Mirna Tonus - Um avanço nos
últimos anos, junto à Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), construído
com base no Programa Nacional de Estágio Acadêmico em Jornalismo, é a
regulamentação nacional de programas de estágio, com supervisão e
acompanhamento docente, a fim de evitar que o ingresso de estudantes se torne
um vício ou mesmo um simples mecanismo para baratear mão de obra profissional.
Nesse sentido, a Lei do Estágio é um importante instrumento para minimizar a
exploração de estudantes enquanto mão-de-obra barata. Consideramos ainda que é
preciso também que o Ministério da Educação, por meio do Instituto Nacional de
Pesquisas Educacionais (INEP), responsável pela autorização/reconhecimento de
cursos superiores, tenha regras próprias também para os cursos de jornalismo.
Isso já acontece com outras áreas, como Medicina, Engenharias e outros setores.
A criação de um curso de jornalismo, no entanto, está solta em orientações
gerais que não diferem de inúmeras outras graduações (bacharelados ou
licenciaturas), como se a especificidade da formação em jornalismo não
demandasse laboratórios próprios e minimamente estruturados, entre outros aspectos.
SOBRE A FNPJ
Mirna Tonus - O FNPJ é uma
entidade essencialmente de professores de jornalismo (embora admita em seu
quadro social jornalistas profissionais) e tem por foco de atuação o ensino de
jornalismo no Brasil, trocando experiências, debatendo, formulando,
implementando e participando de ações e políticas que visem à sua crescente
qualidade. Por ser uma entidade nacional, retrata a confluência dessas
diferentes formações jornalísticas que se encontram no Brasil, ao mesmo tempo
em que se preocupa com uma formação basilar mínima, que qualifique o jornalista
para atuar em qualquer parte do território nacional e do mundo. Atualmente, com
aproximadamente 150 associados, mantém diálogo com outras entidades, como a
Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) – mantém representante no GT
Nacional da Campanha pela volta do Diploma liderado pela federação –,
Associação Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) e com a Federação
Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (Socicom),
entidade à qual é filiada. O Fórum está em plena campanha de filiação, haja
vista que o País, estima-se, tem cerca de seis mil professores de jornalismo.
Marcelle Carvalho
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